De onde eu vim não é passado. É projeto.
Esta não é uma história de superação da periferia. É uma história sobre o que a periferia me deu — e sobre o dia em que eu percebi que precisava transformar isso em caminho.
A riqueza que ninguém via
Cresci na Favela da Coreia, na zona sul de São Paulo. Éramos pobres — mas eu não tinha a dimensão disso, porque o que eu vivia ali não parecia falta. Na casa onde morávamos éramos oito primos, do mais novo ao mais velho com dez anos de diferença. Meus amigos já estavam formados dentro de casa, e a rua era de todos: sempre tinha alguém brincando, jogando, inventando alguma coisa.
Hoje eu sei o nome do que eu tinha ali: comunidade. Criança aprendendo com criança, idades misturadas, pertencimento, responsabilidade que chega antes da palavra responsabilidade. Ninguém desenhou aquilo — e é exatamente o tipo de ambiente de aprendizado que muita gente tenta construir artificialmente e não consegue.
A comunidade onde cresci nunca foi falta. Foi riqueza. E boa parte do que eu faço hoje começa nessa constatação.
Trinta minutos quebrando vidro
Anos depois, eu trabalhava como auxiliar de produção numa fábrica de vidro. Escala 6x2, das seis da manhã às duas da tarde. Um dia, a linha de produção parou — mas o forno que derrete o vidro não se desliga. O vidro continuava saindo, e não podia chegar ao fim da linha. Ficamos uns trinta minutos quebrando vidro na esteira, na boca do forno. Depois, limpamos tudo.
Eu estava esgotado. Num breve descanso, com a enxada pesada na mão, me fiz uma pergunta: "será que eu vou fazer isso pelo resto da vida?" E respondi, em pensamento: "eu não quero fazer isso pelo resto da vida."
Ali eu tive um despertar. Pensei: preciso estudar. Nem sabia o quê — mas sabia que precisava estudar. A partir daquele momento, a minha vida tomou um rumo completamente diferente.
Aprender por conta própria virou profissão
Estudei por conta própria. Me tornei autodidata em tecnologia — do jeito que a comunidade me ensinou a aprender: na prática, no improviso, fazendo. Esse caminho me levou à indústria e, depois, ao meu próprio negócio: fundei a Ennova, empresa de automação industrial que hoje é parceira oficial da KEB Automation no Brasil.
Não conto isso como troféu. Conto porque a trajetória — comunidade, despertar, estudo autodidata, empresa — é a prova prática de tudo que eu defendo sobre educação: quando uma pessoa descobre que é capaz de aprender, o rumo muda.
Devolver em escala
Antes de qualquer projeto, eu já tinha voltado: passei cerca de dois anos como voluntário trabalhando com adolescentes da periferia, tentando expandir a perspectiva deles — mostrar que existia mais mundo do que aquele que a rotina deixava ver.
O que me move hoje é uma conta simples: eu tive um despertar por acaso, no limite, com uma enxada na mão. A maioria das pessoas não tem essa sorte — segue na esteira. Por isso construo projetos de educação, transparência pública e educação financeira: para que a chance não dependa do acaso.
Nenhuma pessoa deveria precisar chegar ao limite para descobrir que merece uma chance. E a maioria nunca chega lá.
Conhecer as frentes de atuação